Julho 25, 2008...11:42 am

Sobre a sexualidade alheia

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Nossa colaboradora ██████ pede a inclusão nas Notas de um curioso comportamento de seu namorado.

“Podemos dizer que, apesar da merda que é o mundo, somos pessoas felizes; não felizes dessas que só o são se contemplam no horizonte comprar um carro a mil parcelas ou ter um emprego bom. Somos felizes juntos. Trabalho no Tribunal de Justiça e ele é redator no jornal “██████”. Ele é um rapaz espirituoso e, o mais importante, com tudo em cima, como toda mulher sonha: bíceps para apalpar, peitoral para apoiar a cabeça, pernões grossos e, hum… outras coisinhas mais, bem mais. Só que tem um pequeno probleminha, é muito tímido fora do quarto, principalmente quando o assunto é farmácia.
Somos pessoas precavidas e, por essa natureza nossa, o sexo sem preservativo é impensável. Não exatamente por causa de doenças venéreas, pois meu queridinho é um modelo de fidelidade e, Deus me queime se alguma vez pus isso em prova! Mas fazemos uso da dita camisa-de-vênus para evitar possível coisas horrendas e medonhas que podem crescer no ventre, como pequenos fetos, originados por uma coisa selvagem e odiosa que se chama concepção. Concepção, só para que fique bem claro, trata-se de um processo que origina um pequeno câncer; o tumor cresce durante nove meses – o que causa enjôos e incômodos – e é expelido pelo corpo numa horrenda dilatação vaginal (quando não é necessário procedimento cirúrgico dito cesariana); como se não bastasse, o tumor tem vida própria e pode sobreviver no mundo extra-uterino, virando uma pessoa.
Mas, voltando – sou muito prolixa, vocês me perdõem – usamos as populares camisinhas para evitar esse horroroso contratempo. E, como toda mulher que se preze, deixa ao camarada que vá à farmácia adquirir tais bens. Afinal, é o pau dele que vai ficar ali, enforcado; é melhor que ele escolha o modelo e tamanho mais apropriado e desenvolva um senso de marca e consiga fazer uma associação marca/conforto. É meio pavloviano, mas funciona.
E eis que meu queridão, apesar de atlético e avantajado, é, como já disse, um pouco tímido. Entra na farmácia para comprar os malditos preservativos, falta ficar roxo; um homem de quase dois metros, parrudo, que fica roxo. Primeiro, põe-se a rodar pela farmácia, olhando coisas aleatórias; depois, localizada a gôndola das camisinhas, começa lentamente a aproximar-se e ver se tem o modelo procurado. Tendo-o localizado visualmente, vai resoluto, pega-o e nunca sai da farmácia sem uns outros dois ou três itens para disfarçar. E passa pelo caixa ardendo em brasas, que nem olha para a cara do caixa; muito menos para a tela do caixa, que exibe em letras garrafais o item que está sendo comprado “Preserv. █████ c/ 6 un.”. Pega a sua sacolinha, enfia o troco no bolso e sai pisando duro, sem olhar para trás.
Ótimo. Apesar dos horrores, ele conseguiu, ele sempre consegue. O ruim é transar com ele no mesmo dia, e já lhes explico por que. Geralmente ele chega em casa, e larga a sacola com todos os itens em algum ponto aleatório do quatro, o famoso método caiu-ficou. Mais à noite, chego eu, trago uns filmes. Aí, pedimos uma pizza e ele começa a insinuar-se; bem, digamos que eu tenho minha parte de culpa, pois vou com roupas que escolho a dedo: justeza, decote ou mesmo adoto o visual camisola-e-calcinha quando vou com o intuito primeiro do ataque (ou melhor, de ser atacada); e, digamos, não sou de jogar-se fora, tenho umas curvinhas até que generosas.
Logo o filme cai no esquecimento, a meia-pizza restante esfria e nós esquentamos: começa o bole-bole, o roça-roça, o pega-pega, o chupa-chupa, tudo aquilo que vocês já conhecem. Aí quando o negócio está fervendo, o meu Hércules pega-me no colo, leva-me ao quarto e arrancamo-nos o que sobrou da roupa. Quando eu já estou ofengando, esperando o pior (ou o melhor), ele sempre se lembra de pegar a bendita, por sorte. Mas não são raras as vezes que, além do preservativo acondicionado na sua bela embalagem quadrada que lhe é mui particular, vem junto a sacola toda. Não é menos raro que, procurando o que interessa dentro da sacola, tira antes uma caixa de pastilhas para garganta e diz: “Olha, bem, vou deixar com você, caso você precise…”. O quê? Pois é, é assim. Ou que seja um enxaguante bucal, fio-dental, analgésico. E é algo que quebra o clima, parece que ele está me chamando de doente!
Da última vez, ele começou novamente com o elenco: manteiga de cacau, soro nasal e umas balinhas de menta. E isso comigo na sua frente, de pernas para o ar, e a minha queridinha, ali, no aguardo, babando; deu até uma esfriada. Irritei-me. Pus-me rapidamente sentada, puxei-o pelo pescoço – ele automaticamente largou a sacola – e eu lhe disse: “Larga essa merda de sacola, põe a touca nesse negócio e fode, pelo amor de Deus!”, e puxei-o para junto de mim sem dar-lhe tempo para pensar.
A coisa terminou por rolar um pouco estranha; estou com receio de tê-lo assustado, mas, putz!, estava irritante. Você lá, babosa e sedenta, a estação espacial esperando a acoplagem da Sojuz e, de repente, a lista de compras da farmácia?!
Acho que eu mesma manterei o estoque de camisinhas em dia, chega disso!”

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