Julho 24, 2008...11:41 am

Ao redor, o pântano

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A vida na cidade é enervante. Congestionamentos, acidentes, gente por todos os lados e todos os males que advêm desses fatos. A vida na província, sem dúvida, é bem melhor. Bem, sim e não.
Nos últimos tempos, todos os sábados, tenho ido à vila de ██████, nas cercanias da Capital, mas já fora da região metropolitana. Embora a vila tenha a fama turística, não vou lá para o turismo semanal, para o qual, prerifo meus lençóis, senão, por motivo laborais, e como dizem por aí, se trabalho fosse bom, não teria o termo que o designa derivado de um instrumento de tortura. Em ██████, leciono técnicas de Xadrez. Por que, um professor da capital tem de sair de sua casa, andar umas boas dezenas de quilômetros para ensinar Xadrez? Talvez os meus quatro anos na Faculdade de Jogos de Tabuleiro e meu Bacharelado em Xadrez digam algo.
Certo dia, voltava para casa do trabalho, sufocado dentro do ônibus, quando, de repente, ao passar diante da Igreja da Consolação, toca-me o celular. Atendo. É a diretora da Escola Jesuíta de Jogos de Tabuleiro de ██████. Começa a falar que precisa urgentemente de um professor de Xadrez, se eu, tendo feito Faculdade não poderia indicar alguém – ela chegou a mim indicada por um colega da Faculdade, membro numerário da Focus Dei. Caí na asneira imensa de oferecer-me. ██████ não me parecia tão longe e tanto falam dela, que é um lugar aprazível e coisa e tal. Até mesmo um ex-presidente da República tem lá uma chácara. Topei.
Algumas semanas indo e vindo, descobri o óbvio: ██████ é uma espécie de feudo que se quer progressista. Uma família manda em tudo e tiram no palitinho quem será o prefeito na próxima rodada de oito anos. É a família dos ██████, hispano-descendentes.
Eles que conseguiram, em troca de favores políticos elevar a vila faminta à categoria de “Estância Turística”. E é um turismo de dar pena: de fim de semana, de farofeiros; a cidade empesteou-se de pousadas cheias de baratas e pesqueiros criadouros de larvas. Um turismo pafúncio e mequetrefe.
E os nossos queridos senhores feudais, os ██████, representados pelo grão-senhor ██████ ██████, atual prefeito, tratam todos como se realmente fossem seus feudatários. Tenho a infelicidade de ter um ██████ em minha sala de xadrez. Têm dinheiro, têm poder. Mas dinheiro não compra nem cultura e nem inteligência. É o tipo de gente mais chã e labrega que já vi. O menino ao qual ensino xadrez é o exemplo de imbecilidade; eu diria mesmo que se trata de um débil mental, incapaz de aprender os movimentos básicos do gamão. Duvido que saiba escrever o próprio nome. Segundo ele mesmo diz, já largou o curso de damas. Penso que, no futuro, ele seja prefeito de ██████. Podem ser espertos, mas são uns ignorantes. Agora, esse pedaço de asno nem esperto é. Enquanto minhas mãos movem-se sobre o tabuleiro, explicando aos alunos os movimentos básicos, ele olha, de boca aberta, mas como se olhasse através do tabuleiro. Assim que termino de explicar, ele vem, com a sua entonação irritante e diz: “Não entendi nada, professor; o senhor pode ser mais objetivo?”. Se não fosse tão bem remunerado, já teria partido o tabuleiro em sua cabeça.
É graças a gente como esse menino e sua família que em ██████ só haverá repolhos, pousadas fedorentas e pesqueiros infectos.

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