Julho 4, 2008...5:09 pm

Vizinhos

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Bem, moro num pardieiro. Um bairro periférico; o problema não é ser longe do Centro, não é estar a no mínimo meia hora de transporte da civilização perceptível. O grande problema é os vizinhos.
A grande afirmação que faço é: o ruim não é ser pobre; afinal, enriquecer ou viver com um mínimo de dignidade financeira nesse país é quase impossível. O problema é ser pobre, cobrir-se de ignorância e ser orgulhoso disso (me vem à mente aquela música infame: “e poder me orgulhar / de ter a consciência que pobre tem seu lugar”).
Os meus vizinhos são a pior escumalha que alguém pode ter como vizinho; são monumentos à inexistência civil e moral. Mas, populachamente falado, eles existem sim, e são muito reais; muito rumorosos.
Tarde de sábado: pôxa, nada mais gostoso do que, depois da comida, dar um cochilo leve. Você pode? Não, porque o animal-de-teta do vizinho está lavando a merda do carro-de-mil-prestações com portas e porta-malas abertos, expondo seu maravilhoso gosto musical para todo o bairro.
Noite de segunda-feira: você chega do trabalho, podre de cansado, trabalhou o dia todo. Tem de ficar andando em zigue-zague, desviando da molecada jogando bola, empinando pipa, andando de bicicleta, se xingando. E como falam palavrões! O mais comum faria uma cafetina corar. Não é o fato das crianças, digo, marmanjos e cavalões, estarem ali, a brincar, mas o de empatar a passagem do outro e da ofensa aos ouvidos. E não pensem que sou um entusiasta workaholic, que acha que todos têm de trabalhar. Ao contrário: trabalho é uma perda de tempo tão grande quanto ficar na rua empinando pipa e fazendo barulho, só que é incontronável.
Manhã e noite de terça-feira: você sai da sua casa antes do sol. Lá está, pendurada na grade, a dona Marocas do local, fofoqueira de plantão e emérita. Você já sai de mau-humor; volta, catorze horas depois, quando o sol já está dormindo há muito, e quem está lá, quase no mesmo lugar? A porra da velha! A lazarenta miserável ficou ali o dia todo: você literalmente se fode, é enrabado pelo chefe e ainda tem de fazer um boquete no gerente-geral, com mil coisas melhores para fazer e para pensar, a filha-da-puta ali, jogando a vida fora a prestar atenção na vida alheia. Dá vontade de gritar: vai tomar no olho do seu cu, sua vaca!

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